‘Ficar no estereótipo de negro favelado não dá mais’, diz ator de ‘Pega Pega’

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BEATRIZ FIALHO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Serendipidade é faculdade de encontrar coisas agradáveis onde não procurava. Para David Júnior, 31, sua carreira como ator tem sido assim: repleta de surpresas boas. O ‘Dom’ da novela “Pega Pega” começou a atuar em 2008, quase por acaso.

Há nove anos, David participava de uma peça como figurante e, depois de um improviso, ganhou destaque e entrou definitivamente para a companhia de teatro. Hoje, ele celebra seu segundo papel de destaque na televisão.

Em “Liberdade Liberdade” (Globo), David assumiu o papel de escravo sexual de sua sinhá, ‘Dionísia’, interpretada por Maitê Proença. Já em “Pega Pega”, ‘Dom’ é um empresário bem sucedido que chama atenção por onde passa.

À reportagem, David comentou que se sente realizado por ter vivido personagens tão importantes. Para ele, o papel de empresário é uma conquista —não só pessoal, mas para todos os negros que ainda não são bem representados na TV.

Engajado socialmente, o ator também se posiciona a respeito do racismo e da representatividade negra.

PERGUNTA: De onde surgiu o gosto pelo teatro?

DAVID JUNIOR: Por acaso. Fui chamado para fazer uma participação como modelo numa peça sobre os 200 anos da vinda da família real no Brasil. Era literalmente para entrar desfilando e sair, mas na hora fiz uma brincadeira com a personagem da Carlota Joaquina (Jerusa Junqueira), que rendeu muitas risadas e eu acabei ficando na companhia e me apaixonando pelo ofício.

PERGUNTA: Você interpretou dois personagens que contracenaram grandes atrizes (com Maitê Proença em “Liberdade Liberdade”, e com Irene Ravache em “Pega Pega”). Como é essa experiência para sua carreira profissional?

DAVID JUNIOR: Uma serendipidade. Li essa palavra no livro “Um Defeito de Cor” e ela virou uma filosofia de vida para mim. Quando vou em busca de algo e acabo encontrando outra coisa. Atualmente eu vivo esperando trombar com qualquer coisa que me faça crescer na vida, isso se aplica a outra definição de serendipidade: “Eu vejo pontes onde outros veem buracos…”

Trabalhar com essas duas foi mais que um presente para mim, me fez amadurecer como profissional e como homem. Tenho uma outra percepção do que é atuar e como levar essa carreira que carrega o peso de tanto glamour e estrelismo.

Elas são o que são por esforço, dedicação, vontade de fazer bem feito e, acima de tudo, amor ao que fazem. Por isso são referências nessa carreira tão difícil de gerir.

PERGUNTA: Nos últimos anos existe um aparente aumento na contratação de atores negros para papéis importantes. Você concorda que esse número vem aumentando ou não viu diferença?

DAVID JUNIOR: Concordo. Falta muito para igualar, mas estamos lutando para que esse aumento se torne significativo. A dramaturgia de um país predominantemente negro, precisa se feita do ponto de vista étnico-social, o que de fato é nossa vida, não o modelo eurocentrista que nos foi vendido.

Nosso país possui médicos, advogados, empresários, dentistas, famílias negras bem-sucedidas, que gostariam de se ver representadas na dramaturgia, não desmerecendo as outras profissões ou classes sociais, mas ficar no estereótipo de negro favelado ou menos favorecido subjugado pela sociedade, digno de pena ou ódio, já não dá mais.

A internet nos aproximou de referências que antes não existiam, como seriados com protagonistas negros, super-heróis negros, séries de jovens, onde o ponto de vista sobre a vida é do negro. Então, se a TV não se moldar a esse novo formato, a gente fica na internet e consome o que nos agrada.

PERGUNTA: Como você se posiciona sobre racismo ?

DAVID JUNIOR: Com afeto e com ódio também. Vejo que temos muito o que aprender quanto ao preconceito racial, digo isso como povo. Eu já fui preconceituoso e posso me pegar sendo ainda, é um processo diário, mas hoje estou aberto a mudanças. Me deparo com pessoas que são preconceituosas, às vezes nem sabem que são. Mas com uma palavra de afeto elas se tornam seres pensantes a respeito, podendo se posicionar de maneira diferente no futuro. 

Outras têm um discurso pronto e irreparável do tipo: ‘Racismo não existe, vocês que têm esse discurso vitimista.’ Para esses, mostro que o ódio também existe do lado de cá e que a fase de abaixar a cabeça e seguir em frente já passou. Agora a gente bate de frente e é de igual para igual.

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